O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se queixou com amigos, nos
últimos dias, da ausência de manifestação mais contundente da
presidente Dilma Rousseff em sua defesa desde o recrudescimento do
bombardeio contra ele. Na avaliação de Lula, o Ministério da Justiça
deveria coibir “abusos” da Polícia Federal para devassar sua vida nas
investigações. As informações são de Vera Rosa e Ricardo Galhardo no
Estadão.
Em reunião com dirigentes do PT, deputados e advogados, anteontem,
Lula argumentou que, diante do desgaste sofrido, é preciso uma nova
estratégia de comunicação. A ideia do PT para estancar a crise é montar
uma rede de apoio ao ex-presidente, na linha “somos todos Lula” –
incluindo políticos de outros partidos e representantes de movimentos
sociais –, com ações de rua e de mídia.
Dilma confirmou presença na comemoração dos 36 anos do PT, marcada
para os dias 26 e 27, no Rio, quando a cúpula do partido fará um
desagravo a Lula. No ato, os petistas baterão na tecla de que há uma
“caçada política” contra o ex-presidente para interditar o PT,
inviabilizar o governo e derrotar a esquerda nas eleições de 2018. Lula
sempre foi o “plano A” do PT para a sucessão de Dilma, mas agora tudo
depende dos desdobramentos das investigações.
O Palácio do Planalto foi informado da insatisfação do ex-presidente
no último dia 28, um dia depois de Dilma ter voltado de viagem a Quito.
Na ocasião, ao ser questionada se a Operação Lava Jato se aproximava de
Lula, Dilma criticou as “insinuações” contra ele e disse achar
“extremamente incorreto” esse tipo de vazamento, mas não quis se alongar
no assunto.
Embora o ex-presidente esperasse mais solidariedade da sucessora, um
integrante do Instituto Lula tentou pôr panos quentes. “Como é que a
Dilma vai defender o Lula se ela própria não consegue se defender?”,
perguntou ele, sob a condição de anonimato, em referência ao cerco
contra o Planalto.
Lula é alvo da Operação Zelotes, que investiga um esquema suspeito de
“compra” de medidas provisórias em seu governo. O Ministério Público de
São Paulo, por sua vez, apura a suspeita de ocultação de patrimônio
relacionada à compra de um tríplex no edifício Solaris, no Guarujá, no
litoral paulista. Lula admite ter visitado o condomínio com o então
presidente da empreiteira OAS, Léo Pinheiro, condenado à prisão, mas
nega ser proprietário do apartamento.
A Lava Jato também vasculha benfeitorias executadas por empresas
envolvidas no escândalo da Petrobrás em um sítio frequentado por Lula e
sua família, em Atibaia, no interior de São Paulo. O ex-presidente
afirma que usa o sítio para descansar, mas não é dono da propriedade.
No Planalto, auxiliares de Dilma comparam as investigações da Polícia
Federal à CPI dos Bingos, batizada de “Fim do mundo” pelo ex-presidente
por abrir várias frentes contra o governo e o PT, em 2005 e 2006.
Ministros do núcleo político dizem não ter dúvidas de que a oposição
quer “esquentar” o processo de impeachment contra Dilma, jogando agora
os holofotes sobre Lula.
“Se estão fazendo isso contra um ex-presidente da República
respeitado como o Lula, imagine o que não vão fazer com a classe
política?”, perguntou o ministro da Casa Civil, Jaques Wagner, na
terça-feira, em reunião com líderes de partidos da base aliada na
Câmara. Sob a alegação de que, do jeito que as coisas andam, todos podem
ter a vida “devassada” pela Polícia Federal, o ministro pediu aos
deputados que saiam em defesa do ex-presidente.
O Instituto Lula e o PT ainda não têm uma estratégia definida para
enfrentar a atual temporada de denúncias. Após o carnaval, advogados do
ex-presidente Lula, do PT e líderes políticos vão se reunir, em São
Paulo, para decidir os próximos passos da contraofensiva. Profissionais
de mídia simpáticos ao PT estiveram no instituto, na sextafeira, para
discutir um plano de “recomposição” da imagem do ex-presidente.
Pesquisas internas mostram que Lula vem perdendo apoio em todos os
cenários e, se as eleições para presidente fossem hoje, o petista não
seria eleito.
Iniciativas. Na semana passada, o PT decidiu de última hora levar à
TV inserções nas quais o presidente da legenda, Rui Falcão, defendeu
Lula. Uma resolução aprovada pela Frente Brasil Popular, que inclui PT,
PC do B, PDT, Movimento dos Sem Terra, CUT, UNE e Central de Movimentos
Populares, repudiou a “forma seletiva” como são conduzidas as
investigações da Lava Jato e o tratamento dado a Lula pela imprensa.
“Todos nos sentimos atingidos com os constantes ataques feitos a Lula”,
diz o texto. No próximo dia 17, a Frente Brasil Popular também fará uma
manifestação diante do Fórum Criminal da Barra Funda, onde o
ex-presidente prestará depoimento, com o mote “Lula eu defendo, Lula eu
respeito!”.
Nenhum comentário:
Postar um comentário