- Rio de Janeiro
- Agência O Globo
A casa deles é a copa das árvores que ficam em florestas,
inclusive as urbanas, como a da Tijuca. Mas isso não impede que cheguem a
quintais, jardins e varandas de residências localizadas perto de matas.
O risco de ser picado pelos transmissores da febre amarela silvestre –
os mosquitos das espécies dos gêneros Haemagogus e Sabethes
– não existe só para quem frequenta áreas verdes, explica o
infectologista e especialista em entomologia médica Aloísio Falqueto,
que, desde janeiro, investiga o surto da doença em Minas Gerais e no
Espírito Santo.
Professor do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do
Espírito Santo, Falqueto estuda há 39 anos insetos que transmitem
doenças. Ele diz que o atual surto no país tem mudado o que se sabe
sobre os mosquitos da febre amarela silvestre. O especialista destaca,
porém, que esses vetores não se afastam muito das florestas. Os Haemagogus e Sabethes
não aparecem em praças e árvores de rua, por exemplo. Tampouco voam
longe, a ponto de alcançarem a maioria dos apartamentos – a não ser os
imóveis contíguos a florestas como a da Tijuca e a do Maciço da Pedra
Branca.
“Não há evidência de que os Sabethes voem mais que 100 metros
dentro de uma mata. Nela, são comuns. Vivem também nas bordas, mas não
entram na casa de alguém ou num apartamento, a não ser que haja uma
varanda encostada nas árvores da mata. Mesmo assim, não ficam por lá,
como o Aedes aegypti. No entanto, podem picar uma pessoa e sair”, afirma o infectologista.
Pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Ricardo
Lourenço, um dos maiores especialistas do país em insetos transmissores
de doenças, diz que cidades com matas urbanas, como o Rio de Janeiro,
sempre tiveram esses mosquitos silvestres. “Imagine casas de Santa
Teresa próximas à Floresta da Tijuca. Muitos desses imóveis ocupam
encostas e ficam no mesmo nível das copas de várias árvores, o que cria
condições para que mosquitos silvestres entrem pelas janelas ou
varandas. Mas não existe motivo para pânico porque, para a febre amarela
silvestre ser transmitida, os mosquitos precisam estar com uma carga
viral considerável, e não há qualquer indício nesse sentido. A população
não tem motivo para ficar alarmada”, afirma Lourenço.
Mesma doença
A diferença entre a febre amarela urbana e a silvestre é justamente o
mosquito transmissor. O vírus é o mesmo; a doença é uma só. Mas a do
tipo urbano é transmitida pelo Aedes aegypti, que infesta cidades
e cuja “vítima” preferida é o ser humano. Abundantes em matas, as
espécies silvestres foram menos estudadas que o Aedes, mas sabe-se que a maioria não circula por longas distâncias. Embora estudos mostrem que uma das espécies de Haemagogus
pode voar por quilômetros, Aloísio Falqueto explica que essas pesquisas
foram realizadas em pontos da Amazônia com condições ambientais muito
diferentes das encontradas na Região Sudeste. “Esse tipo de inseto vive
em um sistema ecológico complexo. Depende das árvores para viver. Porém,
a maior parte do que se sabe sobre ele vem de estudos da Amazônia e da
América Central. Seus hábitos na Mata Atlântica ainda são relativamente
pouco conhecidos”, afirma o professor da Universidade Federal do
Espírito Santo.
“Desde quando mosquito respeita mapa, divisa de estado ou segue por rodovia? Essa história de bloqueio de fronteiras é tão ultrapassada quanto o Tratado de Tordesilhas”
Aloísio Falqueto, infectologista e especialista em entomologia médica da Universidade Federal do Espírito Santo
Não se sabe, por exemplo, quantas vezes a fêmea (só ela se alimenta
de sangue) pode picar uma pessoa. Mas é sabido que, como descem das
copas das árvores, atacam principalmente a cabeça e o tronco. E o fazem
principalmente entre meio-dia e 15 horas, embora possam se alimentar em
todo o período de incidência de luz natural, inclusive no anoitecer,
explica Ricardo Lourenço: “Os macacos são os alvos favoritos dos
mosquitos silvestres. Isso acontece porque, como os insetos, eles vivem
nas copas das árvores. Os primatas sobem nos troncos para períodos de
repouso. Catam uns aos outros e adormecem no início da tarde, quando os Haemagogus e Sabethes estão em seu horário de maior atividade. Ou seja, são atacados facilmente”.
Aloísio Falqueto e outros pesquisadores da Universidade Federal do
Espírito Santo já coletaram 6,3 mil mosquitos em quatro cidades do
Espírito Santo (Venda Nova, Pancas, Santa Teresa e Cariacica),
escolhidas por representarem diferentes ambientes nos quais a febre
amarela vem se manifestando. Esses insetos são analisados pela equipe de
Ricardo Lourenço, na Fiocruz. “A meta é investigar quais são as
espécies dos mosquitos e o nível de infecção pelo vírus. O que mais nos
surpreendeu até agora foi descobrir que 80% desses insetos são Sabethes. Pensávamos que os Haemagogus
eram os principais transmissores da febre amarela silvestre. Mas, na
Mata Atlântica, não é isso o que estamos vendo. Esse surto tem realmente
surpreendido”, afirma Falqueto.
O Sabethes depende mais da floresta e existe em toda a Mata Atlântica. “Praças não têm Sabethes,
mas fragmentos de mata sim. Eles são bem comuns na Mata Atlântica. E
não apenas nela, mas nas plantações de eucaliptos, por exemplo. Essas
plantações existem em toda parte”, diz o professor da Universidade
Federal do Espírito Santo.
Alastramento
Um dos mais experientes estudiosos de mosquitos transmissores de
doenças do Brasil, Aloísio Falqueto não tem a menor dúvida de que a
febre amarela silvestre se alastrará pelas florestas do estado do Rio e
chegará a São Paulo: “Estamos convencidos de que o surto continuará se
alastrando pelas matas e vai chegar, em um período de quatro a seis
semanas, às florestas de São Paulo. Passará pelas serras do estado do
Rio, pelas matas de cidades como Petrópolis e Teresópolis. Não foi
surpresa alguma para nós a doença ter chegado a Casimiro de Abreu. Essa
doença não segue mapas, segue matas. Avisamos que fazer um bloqueio com
vacina apenas nas cidades que fazem limite com Minas Gerais e Espírito
Santo não bastava. O vírus segue pelas áreas de montanhas e se espalha
pelas florestas. Foi isso o que alertamos e foi isso que aconteceu. A
febre amarela segue os caminhos da floresta, isso é sabido”, avisa.
Falqueto diz que não há justificativa para a população de Casimiro de
Abreu e cidades vizinhas não ter sido vacinada antes: “Fico revoltado
de terem deixado acontecer uma coisa dessas. Desde quando mosquito
respeita mapa, divisa de estado ou segue por rodovia? Essa história de
bloqueio de fronteiras é tão ultrapassada quanto o Tratado de
Tordesilhas”, reclama.
Ele observa que bloqueios pontuais, como os que o estado do Rio fez
em janeiro e fevereiro, são insuficientes: “Esse tipo de ação não
funciona, como ficou provado com os casos de infecção de seres humanos,
porque não foi baseado em conhecimento. A doença se espalha como sempre
fez, pelos corredores de florestas. Avisamos isso em reuniões técnicas.
Achamos que esse surto vai acabar somente com a chegada da estação mais
fria, como sempre aconteceu com a febre amarela”.
Ricardo Lourenço destaca que o vírus se espalhou rapidamente por
Minas Gerais e pelo Espírito Santo: “Pesquisamos os mosquitos em toda a
região de serras do estado do Rio em novembro e dezembro do ano passado,
e, na época, não vimos qualquer indício de febre amarela. Nosso grupo
se dedica mais à febre amarela do que a qualquer outra doença. O que
realmente nos preocupa é o risco de a febre amarela se reurbanizar, isso
é, voltar a ser transmitida pelo Aedes aegypti, que infesta as
cidades e tem o ser humano como alvo. Isso seria uma tragédia. Hoje, o
risco de a febre amarela se urbanizar é enorme”.
História
Originária da África, a doença chegou ao Brasil no século 18. Veio com o Aedes aegypti,
seu principal transmissor, e causou epidemias que mataram milhares de
pessoas. Com as campanhas de erradicação intensas do início do século
20, a febre amarela foi controlada no Brasil em 1942. O último registro
foi no Acre. Porém, nos anos 1930, no Vale do Cannã, no Espírito Santo,
descobriu-se que ela tinha um ciclo silvestre. Esse ciclo, que se
dissemina com intensidade muito menor, permaneceu nas florestas
brasileiras causando surtos pequenos e pontuais, principalmente na
Amazônia.
A partir dos anos 2000, a doença começou se espalhar para o Leste e o
Sul com maior intensidade. E, no fim de 2016, eclodiu em seres humanos,
em Minas Gerais, no pior surto de febre amarela silvestre do Brasil.
Segundo o Ministério da Saúde, há 1.558 casos notificados, a maioria em
Minas Gerais e no Espírito Santo.
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